terça-feira, 7 de julho de 2015

O PT E A BRILHANTE INSTRUMENTALIZAÇÃO DO MAL


Agora sei... Há muitos anos atrás, um primo que deve ser descendente de Nostradamus, previu tudo. Foi detalhista, extremista e extremado nas suas colocações. Ele conhecia os meandros da política e do poder muito melhor do que eu e me disse:“Eles vão devorar o país. Eles  vem com um apetite, uma voracidade insaciável. Você vai ver"  Foi essa  a sentença emitida . Na época, não conseguiu me convencer. Eu achava aquilo terrorismo de direita, medo de ascensão de um lado e  queda do outro. Medo da mudança que eu vislumbrava, plena de esperanças e ele de ceticismo. Fui amplamente avisada do que ia acontecer. Mesmo assim continuei aferrada à certeza de que aquela era a oportunidade de uma guinada fundamental que o país precisava. Um outro ciclo que privilegiasse meus ideais de educação, saúde e justiça social. Afinal, ao votar, eu  tinha a opção democrática de escolher um partido que há anos lutava pela realização desses sonhos. Hoje, meu primo me ligou e diante dos fatos consumados e consumidos, tive que me curvar, admitindo minha ingenuidade, inocência e até minha ignorância frente a perspicácia dele naqueles tempos. Tive que socraticamente dizer: Sei que nada sei. Paradoxo.Comecei o texto dizendo que agora sei.O que sei? Na minha profissão, a questão da interpretação  é vital. Todo cuidado é pouco. Aprendemos que as  coisas nunca vem de um lugar só, mas de múltiplos lugares, portanto, um fato tem muitos ângulos possíveis. Nele cabem  variáveis intervenientes que afetam e determinam as interpretações do mesmo. 
Baseada nessa premissa, interpretei  de baixo para cima, de cima para baixo, pelas lateralidades e profundidades, todas as barbaridades praticadas por esses loucos inescrupulosos que se apossaram e assaltaram o meu país. Desses perversos  enganadores.  Ainda ontem mesmo, fiquei sabendo através de alguns pacientes jovens que estudaram horrores para conseguir uma vaga pós ENEM, que eles vão terminar o semestre na UFRJ sem ter noção do que irá acontecer depois de setembro. Sim, porque a Universidade só tem verba para se sustentar até lá. Os estudantes vão voltar para seus diferentes estados, sem eira nem 
beira. Como moram de aluguel, não sabem o que fazer. Rompem contratos? Continuam pagando, mesmo sem 
estar no Rio? Tem condições para isso? Como ficam as provas, os investimentos, a vida dessas pessoas e 
seus ideais?  Esse desgoverno promiscuo fez o quê para impedir esse caos? Enem ? Nem aí. Educação é 
luxo?  Segundo o ex-presidente Lula é lixo, porque ele próprio disse que não precisou estudar para 
chegar aonde chegou. Metáfora perfeita do Brasil, "o país da educação!"                                  
Aí vem o Jô Soares, até então figura queridíssima nesse país e se espanta porque o juraram de morte pela sua “encantadora entrevista” com a presidenta Dilma. Onde ficou a sensibilidade desse homem tão observador e culto para não perceber que na frente das telas de TV, existe um povo absolutamente 
indignado com a maior roubalheira e cinismo jamais vistos antes, dirigido por uma senhora que tem apenas 9% de aprovação?  O que ele foi fazer lá? Confrontá-la ou confortá-la? Liberdade de expressão? O povo também tem e o preço que ele pagou parece que foi tão alto quanto o que ele supostamente recebeu.  
O mal na politica, de fato, sempre existiu, basta olhar a história da humanidade, mas os arquitetos dessa construção bizarra exageraram. Elaboraram um projeto genial para ficar o máximo possível no poder, gerenciaram a pobreza com cestas básicas e atenderam, paralelamente, as necessidades básicas  do partido, extraindo das estatais  a forma de sustentação desse sistema que gerou uma ilusão de poder na população. A ignorância permaneceu, através do estímulo ao consumo  desenfreado das classes que sempre olhavam as vitrines e não podiam acessar os bens de consumo exaustivamente exibidos nas novelas e que agora, infelizmente, dão de cara com o mal estar e a ironia de não “poderem” de novo, pelo estrago causado pela  recessão. Tem esquema mais perverso do que esse?                 
Temos escutado máximas frequentes. Ah , mas corrupção sempre existiu . Nesse volume vivo? E isso, por um acaso, justifica essa podridão toda? Porque essa criatura que não me representa, já que não a escolhi, nos trata sempre como um bando de imbecis, que não tem discernimento para entender que seus discursos são insanos? Ou cínicos? Vendo agora uma entrevista com Domenico De Masi, sociólogo italiano, encontrei um certo apaziguamento para essas e outras perguntas que não calam. Porque não fazemos nada? Porque estamos desnorteados. Essa a palavra justa que nos define no Brasil. Sem norte mesmo. Navegando nas redes, urrando perplexos diante da avassaladora onda de perversão que nos colocou à deriva. Somos traumatizados diariamente.
E La Nave?
Va..... Fellinianamente   
Angela Villela

_Parabéns priminha pelo belo texto e entendimento do problema. Embora tenha sempre clamado e brigado por uma mudança social neste País,
antevi o insucesso do PT pela falta de quadro e incompetência de seus dirigentes. (Vide Lech Walesa na Polônia sem querer comparar caráter...). O que não contava é que All Capone fosse história infantil perto dessa quadrilha.
Beijocas

_Obrigado por me enviar estas belissimas mensagens,cheias de verdade e primorosamente redigidas
Atenciosamente,
paulo sergio lima silva | 

_ Angela
Acabei de ler seu texto...fantástico!!! Realista e verdadeiro.
Parabéns pela forma clara e objetiva que vc escreve.
Vou sugerir essa leitura a meu filho que comecará a votar no próximo ano.
Bjs
Glaucia

14:06 (Há 2 horas)
exelente texto, gostei muito
bem parecido com o que penso ( junto c milhões de pessoas perplexas )
beijos

Nelson Motta


Angela, querida,
Eu, como mts que prezam a cidadania brasileira, me solidarizo com o seu sentir, mas nos resta a esperança como nos indica Pandora.
Como vc bem sabe, nunca votei no Lula, já tivemos um pai dos pobres de 30 a 45 e a história nos mostrou o resultado dessa hipócrita demagogia. Portanto, ele não me emocionou e nem me convenceu. Infelizmente tenho que concorda com o seu primo, logo eu, que sou romântica, otimista e crédula. Enfim... chegou a minha época de ter um pai dos pobres, e eu que pensava que isso era coisa do passado, já  enterrado e só se mantinha vivo nos livros de história. Mas ao que parece ainda vende como água. Mts seguidores fiéis.
Adorei sua escrita, inteligente, criativa, comprometida,
Bjs
Bia 



sábado, 3 de janeiro de 2015

AS RENDAS NA POSSE



Bela roupagem a da presidenta na posse.Ela estava revestida em rendas. Tons pastéis, suaves, discretos, tonalidade bem diferente das cores fortes  que a esperam nas teias e nos outros tipos de rendas no seu segundo mandato.Aliás, impressionou-me a quantidade de “mulheres rendadas” nas inúmeras posses Brasil a fora. Chamou-me a atenção a predominância  desse tecido nos figurinos presentes. Tudo bem, renda é coisa fina, chique, mas ali parecia coisa de inconsciente coletivo. Como se  a finura nas aparências mascarasse o lamaçal ligado a "outras rendas".Ou seja, vestidos de renda e muita renda nos bancos suiços. 
Pensei em que medida a estética nas fotos se relacionava com a ética. Afinal, todo pensamento já está desde sempre, de alguma maneira, contaminado de algum sentimento, seja ele, admiração, indignação, estupefação ou depressão. E pensar nas rendas através de um olhar psicanalítico, faz, inevitavelmente, com que se capte outras estilísticas que não as propriamente visíveis. Penso na feiúra dos subterrâneos, por exemplo, na sujeira das trapaças. Há algo no feio que nos envergonha, que desperta nossos instintos mais básicos. O feio é aquilo que sobra quando a beleza se ausenta e está relacionado à desmedida, ao excesso, aos acometidos por desvios de caráter, à mentira, à injustiça, ao menosprezo  à inteligência alheia. Ter que ouvir que esse governo vai ser o da educação depois de 12 anos de total desprezo pelos professores e educadores desse país, começando pela retirada de um dos maiores defensores que existem da educação como meta, como princípio, o admirável Cristóvam Buarque, é no mínimo subestimar a paciência da população que acompanha a vergonha com que tal assunto foi tratado ao longo desses anos pelos governos petistas. Basta ver quanto faturam Vs.Excelências e comparar com a miséria paga a um professor que rala em sala de aula para manter-se e à sua família. Basta ver os aumentos absurdos que são dados aos altos escalões dos poderes judiciários, executivos e legislativos, apesar da crise em que vivemos. Compare-os à renda de um professor. E a Lei Magna diz que somos todos iguais. 
Recorro a Sócrates: “Todos os homens são mortais (premissa I);Sócrates é homem (premissa II),logo Sócrates é mortal (conclusão ).      
Da mesma forma,concluímos que não dá para acreditar que todos os trabalhadores estão submetidos a este tipo de lógica. As rendas são tecidas muitas vezes por mãos escravas, bocas sedentas e famintas de Mulheres Rendeiras que fazem delas seu ganha pão.     Que a presidenta reeleita sinta através da veste que lhe envolve o corpo, que "renda"é uma questão de injustiça grave nesse país e se aposse de um discurso mais verdadeiro face ao real, sem as falácias de sempre. 
O povo brasileiro, mais do que rendas e mais do que nunca merece respeito.
Angela Bezerra Villela

terça-feira, 19 de agosto de 2014

SOROPOSITIVIDADES


Elas vêm de todos os lugares.
Da Pavuna, de Xerém, da Vila, de Raiz da Serra.
Vem de trem, de ônibus, a pé e chegam ao hospital em busca do resultado de um simples exame de rotina ou de um teste de gravidez.
Vem saber se carregam dentro de si uma vida.
Nesse exato ponto, são surpreendidas.
Junto à resposta positiva da gravidez, deparam-se com uma outra ordem de positividade:
“Amostra reagente”.
“HIV positivo”.
O chão escapa, o ar falta e os ruídos de uma morte anunciada se tornam pouco a pouco ensurdecedores. A cena tinge-se de vermelho.
Uma estética que transita entre o horror e a mais absoluta negação se instala.
Traição, contaminação, disseminação passam a ser as palavras de ordem, pois a maioria foi contaminada por parceiros na relação sexual. Ódio e revolta fazem contraponto com um estado de perplexidade, onde o corpo escapa ao controle e mostra sua própria vida.
A notícia do HIV é uma experiência convulsionária. O chamamento da morte produz uma espécie de despossessão corporal  e instala uma anatomia fantasmagórica. Esse corpo atravessado por um vírus e por agentes químicos de alto teor, vira um corpo-velocidade onde metamorfoses aceleradas estabelecem uma outra cartografia. Um excesso de concretude demarca um novo modo de existência.  A revelação que atinge o portador cristaliza a sua existência numa nova categoria – a de aidético.
O material, portanto, que se apresenta para a clínica é profundamente rico em questões.
A que sujeito pertence esse corpo estranho?O que pode a psicanálise face ao que parece escapar à teoria?
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Os desdobramentos dessas e de outras questões, estão nos Cadernos de Psicanálise__ "Sonhos", editado  pelo Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro em 2013, com o título "  O HIV e a Atualidade da Psicanálise".
Esses 20 anos de trabalho e convívio com mulheres / Aids, levaram à criação de um grupo chamado  "Soropositividades".Através dele,estas mulheres tem apoio psicológico e são, também, beneficiadas com outras modalidades de ajuda. Foram"adotadas" e recebem mensalmente cestas básicas e suporte financeiro.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

INCÊNDIOS


Fui ver “Incêndios”, a peça.
 Confesso que resisti durante um bom tempo, porque o filme havia me devastado. Coração e retinas foram atravessados. Inexoravelmente.                                             
 Assim sendo, era como se eu tivesse medo de ver “profanada“ a grandeza da obra que  havia testemunhado , uma vez que não concebia como aquilo caberia na cena teatral, embora soubesse que essa era sua origem. 
Até que recebi um convite de uma amiga e fui ao  “Poeira”, atraída,  principalmente, por uma  Presença : Marieta Severo. Queria ver sua Nawal.                           
Segundo êxtase. Saio do teatro com um sentimento de urgência. Preciso ler, escrever, pensar, colocar em palavras essa experiência sensorial deslumbrante. Corpo e alma foram atingidos, esmagados outra vez e agora, de uma forma mais próxima. O palco é diferente da tela, estamos dentro da arena, somos incluídos na cena. Somos um elemento a mais. O desafio é encontrar as palavras e tornar traduzível o que é da ordem do indizível. Vi-me diante de uma narrativa em tom preciso, face às intensidades pulsionais que modulam a cena, como se o pesadelo, num recorte sinuoso, não só cortasse a carne, mas integrasse e retratasse a fantasmagoria dos detalhes, o puro insólito ao mesmo tempo atrelado a um real chocante .                   
O texto, no caso uma história advinda de uma outra cultura, precisa ser decodificado através de uma gangorra que vai ao passado e volta ao presente, um tipo de código alienado aos elementos que compõem a aridez, a estrangeridade que nos atinge a retina, forçando-nos a uma tentativa de discernimento e compreensão dessa outra língua que nos invade.Como na psicanálise, que está destinada a escutar o que não se diz, a trabalhar nas bordas para reintegrar as partes esfaceladas a um quase-todo, já que é impossível significar tudo, pois existem zonas sombrias não simbolizáveis.                               
O que fazer quando a mente está diante da precariedade da palavra?  “Incêndios” traz vários enigmas, sendo que o principal, o que mais me instiga, é apontado por Freud como imanente ao 
ser: a busca das origens. Esse mistério se atualiza nos horrores das guerras insanas e nas barbáries que elas produzem. O ser humano se perde  de si mesmo, de seus valores civilizatórios , aniquila-se e ao outro também, cavando um poço de memórias inextinguíveis. O que vemos hoje na Síria aconteceu no Líbano de Nawal. Imagens de corpos, vestígios de um emaranhado de objetos. Rastros de ódio e perda de referências.                 
Para Jean Pierre Vernant, no meio dessas perdas  e desse caos, “há um ponto originário, mítico, mágico ou sagrado” que sobrevive. Um ponto primordial chamado "Ur", prefixo alemão que significa aquilo que diz respeito à necessidade do ser humano  de saber sobre sua origem. Uma busca pelo “ur-teil, traços identificatórios originários" que definem o sujeito em sua singularidade e fazem com que ele se reconheça como tendo vindo de um lugar, de um outro ser, o que lhe ajudará a dizer quem é e para onde vai. Entretanto, as mesmas forças que entremeiam as origens saudáveis e fundantes, referem-se a um outro aspecto identitário  que contem, potencialmente, a possibilidade de um encontro com a rejeição com aquilo que é experimentado como estrangeiro e inimigo. Simon, o irmão gêmeo que sobreviveu às custas da humanidade que há na desumanidade, carrega essa faceta do horror na alma e no corpo. A  decisão de Jeanne, sua irmã, ao contrário, de percorrer os caminhos de Nawal ,sua mãe, é desencadeada assim que os nós do destino começam a se desenrolar. Ela não fecha  a multiplicidade de interpretações que haviam em torno do silêncio da mãe, como Simon. Jeanne quer saber o que lhe foi destinado através da história dessa mãe. Ela quer as origens dos fatos. Ela é a filha que quer entender o que há além do visível. Nawal é o enigma a ser decifrado porque é a origem, a fonte do mistério. E esse é um dos pontos mais notáveis dessa tragédia engendrada por Wajdi Mouawad e o que mais me tocou. Os filhos jamais conhecem de fato a história de seus pais. O que estes viveram faz parte de um tempo que só pode ser acessado através de narrativas distorcidas. Por trás de um silêncio pode haver um pacto com o horror, pode haver a brutalidade e a animalidade que habita todo ser humano. Freud sabia disso como poucos e por essa razão dedicou-se às pulsões de morte.Existem frases na peça que definem o risco que é falar e o risco que é silenciar:             
”A infância é uma faca enfiada na garganta”.                                      
“Existem histórias que não são para serem reveladas e sim descobertas”.                                     
E porque ? Porque elas obrigam aos trilhamentos, ao tempo, ao espaço interno e ao conhecimento mais profundo do próximo e de si mesmo, fazendo com que este saber traga outros sentidos à existência, outros ângulos e interpretações. Wajdi Mowawad nos leva de volta ao trágico e ao belo que os gregos nos deixaram como herança. E nos faz ler, escrever, e pensar. Muito. Como Nawal.                                   Gratíssima a todo esse elenco espetacular e à direção soberba de Aderbal Freire Filho, pela experiência inesquecível de assistir ao que pode haver de melhor num palco: a VIDA em sua dimensão mais profunda. E só quem a viveu, como provavelmente é o caso de Marieta Severo, pode ser Nawal.

Comentário
:Cara Angela obrigado por nos revelar mais ainda aquilo que procuramos trazer a cada noite para a cena no encontro com o público. Um grande abraço

Atenciosamente,

Isaac Bernat
Ator da peça











                                                                                                                                                                                                                                                          



sábado, 15 de fevereiro de 2014

PARA GUILHERME FIUZA


UFA!!! Finalmente alguém vai nas vísceras.Já ouvi de algumas pessoas que você é "reaça " demais e sempre detectei algo diferente no que você escreve. Bem para além do que um simples "reaça" faria, porque você fala de um outro lugar, pulsional, sem mais rodeios e atinge em cheio o alvo, detonando esse blá-blá-blá que é infinitamente aquém da gravidade dos fatos. Respirar está difícil nessa cidade, nesse país e não é só pelo calor avassalador. Há algo de muito podre no ar, que nos faz sentir um peso imenso no viver cotidiano. Ele, o ar, custa a passar dentro do peito E hoje, sábado 15/ 2. quando li sua crônica respirei  fundo, porque você produziu a síntese. Exagerada, dirão alguns?  No ponto, dirão outros. Sabe aquela bombinha que asmático usa para fazer o ar passar? Pois, é....você foi "a" bombinha" no meio de tantos rojões de indignação que atravessam corações, cabeças e mentes nesse momento absolutamente sombrio que estamos passando. Nem o sol infernal consegue disfarçar. 

Gratíssima.                                                                                



quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

FÉRIAS EM MANAUS


 Após um longo período, eis me de volta a esse espaço.
E penso que é interessante como o vejo. É como se de fato ele demandasse de mim um tempo único, dedicado, feito de exclusividades. Não me permito sentar e escrever apenas porque tenho um blog. A escrita  é um ritual para mim tão sagrado, de tanto prazer, que não sinto vontade de dividi-lo com mais nada. E como estive tomada por outros apelos, só agora me debruço, mais uma vez , sobre as letras e as palavras, que se mostram precárias para descrever as férias em Manaus, onde me banhei, não só no Rio Negro, mas, também, no excesso de amor que só quem tem o privilégio de ter uma família amazonense conhece.Acolhimento e calor humano, senso de humor e ironia, tudo junto e misturado com muita comilança e risadas mergulhadas em bandejas de tambaqui na brasa, pirarucu picadinho com farinha de ariri, tucunaré , cupuaçu, buriti, tapioca no café da manhã, praia do japonês no meio da selva, com areia branquinha como se fosse mar. E doces tão doces, como a imensa doçura que as pessoas de lá carregam na alma. Preciso ir sempre à Manaus...É uma questão de compromisso com a vida. Lá, ela sobra...é só ler HISTÓRIAS NÃO REGISTRADAS, de João Bosco B.Araújo. Vocês vão entender....

Comentário: shehryar anwer deixou um novo comentário sobre a sua postagem "FÉRIAS EM MANAUS": 
HISTÓRIAS NÃO REGISTRADAS

João Bosco Araújo*


Conversando “miolo de pote” com a prima querida, nascida e criada no Rio de Janeiro, fora da minha vista havia muitos anos, regozijava-me com seu riso solto e ruidoso, a cada “causo” contado, todos eles ligados ao “folclore baré”, geralmente impregnado da leseira, também baré.
Quebrou o ritmo do papo a sua insistente sugestão de que eram fatos que precisavam ser registrados em livro. Na verdade, acho eu, não mereceriam um livro e nem um livro os mereceria. Quem sabe, quando muito, poderiam passar de miolo de pote a miolo de um folheto de cordel, daqueles que os nordestinos produzem em abundância. 
De qualquer forma, como a uma prima fraterna que esteve indelevelmente presente na minha história de vida não é possível simplesmente recusar algo, cedo aqui ao seu capricho e registro alguns desses episódios hilários, a priori pedindo perdão a algum familiar dos personagens que venha a se ofender. Fique a certeza de que não houve outra intenção, senão a de agradar à prima. 
EPISÓDIO I – O barbeiro Colares, lá da Rua Henrique Martins, que tinha entre os seus clientes o interventor Álvaro Maia, soube que o governante viajaria à Itália e seria recebido, no Vaticano, por Sua Santidade, o Papa Pio XII. Como o barbeiro tinha um filho ordenado padre, esperou a costumeira visita de Álvaro para pedir-lhe que intercedesse junto ao Papa a fim de conseguir para o filho uma promoção a bispo. O “Cabeleira”, como bom político, prometeu fazer o pedido, mas, naturalmente, logo esqueceu o prometido.
Quando retornou, Álvaro Maia foi cobrado na primeira visita à barbearia e não hesitou: - “Ocorreu que quando me ajoelhei para beijar o anel do Papa, S.S. passou a mão na minha cabeça e falou: Álvaro, que cabelo mal cortado! Com isso, não tive mais condição para fazer o pedido...”.
EPISÓDIO II – Gilberto Mestrinho, governador, dava uma entrevista numa televisão em S. Paulo a uma jornalista e defendia a caça aos jacarés, a fim de incrementar a exportação das valiosas peles. Arguido sobre o risco de extinção da espécie, afirmou com segurança que só no lago de Nhamundá havia 38.000 jacarés. Prosseguiu a entrevista e a moça perguntou sobre os yanomamis, que já tinham sido cerca de 200.000 e hoje seriam menos de 10.000. Foi quando o governador perguntou sobre quem tinha contado esses índios e a jornalista prontamente respondeu: - “A mesma pessoa que contou os seus jacarés”.
EPISÓDIO III – Cônego Alcides Peixoto, como de praxe, escolheu um caboclo encorpado para ser o Jesus na Paixão de Cristo que encenava anualmente na Praça da Igreja, em Itacoatiara. Dadas as instruções, quando, sob o sol insuportável, antes da morte, o Cristo pediu água, o lanceiro embebeu a esponja em cachaça para dar forças ao ator, espetou-a na lança e gritou: - “Queres água, toma fel”. Jesus sugou a esponja e gemeu do alto da cruz: -“Mais fel!”.
EPISÓDIO IV – Ah, prima, esqueci daquele governador que pediu sal ao RG do Norte e, ao receber em seu lugar uma carga de cal, lamentou publicamente: - “P... esqueci a cedilha”.
Aí vai, querida prima, alguma coisa do que pediste. O que foi possível, depois de muito espremer, botar neste exíguo espaço.


*Diretor Executivo do Amazonas EM TEMPO.