terça-feira, 19 de agosto de 2014
SOROPOSITIVIDADES
Elas vêm de todos os lugares.
Da Pavuna, de Xerém, da Vila, de Raiz da Serra.
Vem de trem, de ônibus, a pé e chegam ao hospital em busca do resultado de um simples exame de rotina ou de um teste de gravidez.
Vem saber se carregam dentro de si uma vida.
Nesse exato ponto, são surpreendidas.
Junto à resposta positiva da gravidez, deparam-se com uma outra ordem de positividade:
“Amostra reagente”.
“HIV positivo”.
O chão escapa, o ar falta e os ruídos de uma morte anunciada se tornam pouco a pouco ensurdecedores. A cena tinge-se de vermelho.
Uma estética que transita entre o horror e a mais absoluta negação se instala.
Traição, contaminação, disseminação passam a ser as palavras de ordem, pois a maioria foi contaminada por parceiros na relação sexual. Ódio e revolta fazem contraponto com um estado de perplexidade, onde o corpo escapa ao controle e mostra sua própria vida.
A notícia do HIV é uma experiência convulsionária. O chamamento da morte produz uma espécie de despossessão corporal e instala uma anatomia fantasmagórica. Esse corpo atravessado por um vírus e por agentes químicos de alto teor, vira um corpo-velocidade onde metamorfoses aceleradas estabelecem uma outra cartografia. Um excesso de concretude demarca um novo modo de existência. A revelação que atinge o portador cristaliza a sua existência numa nova categoria – a de aidético.
O material, portanto, que se apresenta para a clínica é profundamente rico em questões.
A que sujeito pertence esse corpo estranho?O que pode a psicanálise face ao que parece escapar à teoria?
.................................................................................................................
Os desdobramentos dessas e de outras questões, estão nos Cadernos de Psicanálise__ "Sonhos", editado pelo Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro em 2013, com o título " O HIV e a Atualidade da Psicanálise".
Esses 20 anos de trabalho e convívio com mulheres / Aids, levaram à criação de um grupo chamado "Soropositividades".Através dele,estas mulheres tem apoio psicológico e são, também, beneficiadas com outras modalidades de ajuda. Foram"adotadas" e recebem mensalmente cestas básicas e suporte financeiro.
quarta-feira, 7 de maio de 2014
INCÊNDIOS
Fui ver
“Incêndios”, a peça.
Confesso que resisti durante um bom tempo,
porque o filme havia me devastado. Coração e retinas foram atravessados.
Inexoravelmente.
Assim sendo, era como se eu tivesse medo de
ver “profanada“ a grandeza da obra que
havia testemunhado , uma vez que não concebia como aquilo caberia na
cena teatral, embora soubesse que essa era sua origem.
Até
que recebi um convite de uma amiga e fui ao
“Poeira”, atraída,
principalmente, por uma Presença
: Marieta Severo. Queria ver sua Nawal.
Segundo êxtase. Saio do teatro com um
sentimento de urgência. Preciso ler, escrever, pensar, colocar em palavras essa
experiência sensorial deslumbrante. Corpo e alma foram atingidos, esmagados
outra vez e agora, de uma forma mais próxima. O palco é diferente da tela,
estamos dentro da arena, somos incluídos na cena. Somos um elemento a mais. O
desafio é encontrar as palavras e tornar traduzível o que é da ordem do
indizível. Vi-me diante de uma narrativa em tom preciso, face às intensidades
pulsionais que modulam a cena, como se o pesadelo, num recorte sinuoso, não só
cortasse a carne, mas integrasse e retratasse a fantasmagoria dos detalhes, o
puro insólito ao mesmo tempo atrelado a um real chocante .
O
texto, no caso uma história advinda de uma outra cultura, precisa ser
decodificado através de uma gangorra que vai ao passado e volta ao presente, um
tipo de código alienado aos
elementos que compõem a aridez, a estrangeridade que nos atinge a retina,
forçando-nos a uma tentativa de discernimento e compreensão dessa outra língua
que nos invade.Como na psicanálise, que está destinada a escutar o que não se diz,
a trabalhar nas bordas para reintegrar as partes esfaceladas a um quase-todo,
já que é impossível significar tudo, pois existem zonas sombrias não
simbolizáveis.
O
que fazer quando a mente está diante da precariedade da palavra? “Incêndios” traz vários enigmas, sendo que o principal, o que mais me
instiga, é apontado por Freud como imanente ao
ser: a busca das origens. Esse mistério se atualiza nos horrores das guerras insanas e nas barbáries que elas produzem. O ser humano se perde de si mesmo, de seus valores civilizatórios , aniquila-se e ao outro também, cavando um poço de memórias inextinguíveis. O que vemos hoje na Síria aconteceu no Líbano de Nawal. Imagens de corpos, vestígios de um emaranhado de objetos. Rastros de ódio e perda de referências.
ser: a busca das origens. Esse mistério se atualiza nos horrores das guerras insanas e nas barbáries que elas produzem. O ser humano se perde de si mesmo, de seus valores civilizatórios , aniquila-se e ao outro também, cavando um poço de memórias inextinguíveis. O que vemos hoje na Síria aconteceu no Líbano de Nawal. Imagens de corpos, vestígios de um emaranhado de objetos. Rastros de ódio e perda de referências.
Para
Jean Pierre Vernant, no meio dessas perdas
e desse caos, “há um ponto originário, mítico, mágico ou sagrado” que
sobrevive. Um ponto primordial chamado "Ur", prefixo alemão que significa aquilo que diz respeito à necessidade do ser humano de saber sobre sua origem. Uma busca pelo
“ur-teil, traços identificatórios originários" que definem o sujeito em sua
singularidade e fazem com que ele se reconheça como tendo vindo de um lugar, de
um outro ser, o que lhe ajudará a dizer quem é e para onde vai. Entretanto, as
mesmas forças que entremeiam as origens saudáveis e fundantes,
referem-se a um outro aspecto identitário que
contem, potencialmente, a possibilidade de um encontro com a rejeição com
aquilo que é experimentado como estrangeiro e inimigo. Simon, o irmão gêmeo que
sobreviveu às custas da humanidade que há na desumanidade, carrega essa faceta
do horror na alma e no corpo. A decisão
de Jeanne, sua irmã, ao contrário, de percorrer os caminhos de Nawal ,sua mãe,
é desencadeada assim que os nós do destino começam a se desenrolar. Ela não fecha a multiplicidade de interpretações que haviam
em torno do silêncio da mãe, como Simon. Jeanne quer saber o que lhe foi
destinado através da história dessa mãe. Ela quer as origens dos fatos. Ela é a
filha que quer entender o que há além do visível. Nawal é o enigma a ser
decifrado porque é a origem, a fonte do mistério. E esse é um dos pontos mais
notáveis dessa tragédia engendrada por Wajdi Mouawad e o que mais me tocou. Os
filhos jamais conhecem de fato a história de seus pais. O que estes viveram faz
parte de um tempo que só pode ser acessado através de narrativas distorcidas.
Por trás de um silêncio pode haver um pacto com o horror, pode haver a
brutalidade e a animalidade que habita todo ser humano. Freud sabia disso como
poucos e por essa razão dedicou-se às
pulsões de morte.Existem
frases na peça que definem o risco que é falar e o risco que é
silenciar:
”A infância é
uma faca enfiada na garganta”.
“Existem
histórias que não são para serem reveladas e sim descobertas”.
E
porque ? Porque elas obrigam aos trilhamentos, ao tempo, ao espaço interno e ao
conhecimento mais profundo do próximo e de si mesmo, fazendo com que este saber
traga outros sentidos à existência, outros ângulos e interpretações. Wajdi
Mowawad nos leva de volta ao trágico e ao belo que os gregos nos deixaram como
herança. E nos faz ler, escrever, e pensar. Muito. Como Nawal. Gratíssima
a todo esse elenco espetacular e à direção soberba de Aderbal Freire Filho,
pela experiência inesquecível de assistir ao que pode haver de melhor num
palco: a VIDA em sua dimensão mais profunda. E só quem a viveu, como
provavelmente é o caso de Marieta Severo, pode ser Nawal.
Atenciosamente,
Isaac Bernat
Comentário
:Cara Angela obrigado por nos revelar mais ainda aquilo que procuramos trazer a cada noite para a cena no encontro com o público. Um grande abraço
Atenciosamente,
Isaac Bernat
Ator da peça
sábado, 15 de fevereiro de 2014
PARA GUILHERME FIUZA
UFA!!! Finalmente alguém vai nas vísceras.Já ouvi de algumas pessoas que você é "reaça " demais e sempre detectei algo diferente no que você escreve. Bem para além do que um simples "reaça" faria, porque você fala de um outro lugar, pulsional, sem mais rodeios e atinge em cheio o alvo, detonando esse blá-blá-blá que é infinitamente aquém da gravidade dos fatos. Respirar está difícil nessa cidade, nesse país e não é só pelo calor avassalador. Há algo de muito podre no ar, que nos faz sentir um peso imenso no viver cotidiano. Ele, o ar, custa a passar dentro do peito E hoje, sábado 15/ 2. quando li sua crônica respirei fundo, porque você produziu a síntese. Exagerada, dirão alguns? No ponto, dirão outros. Sabe aquela bombinha que asmático usa para fazer o ar passar? Pois, é....você foi "a" bombinha" no meio de tantos rojões de indignação que atravessam corações, cabeças e mentes nesse momento absolutamente sombrio que estamos passando. Nem o sol infernal consegue disfarçar.
Gratíssima.
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
FÉRIAS EM MANAUS
Após um longo período, eis me de volta a esse espaço.
E penso que é interessante como o vejo. É como se de fato ele demandasse de mim um tempo único, dedicado, feito de exclusividades. Não me permito sentar e escrever apenas porque tenho um blog. A escrita é um ritual para mim tão sagrado, de tanto prazer, que não sinto vontade de dividi-lo com mais nada. E como estive tomada por outros apelos, só agora me debruço, mais uma vez , sobre as letras e as palavras, que se mostram precárias para descrever as férias em Manaus, onde me banhei, não só no Rio Negro, mas, também, no excesso de amor que só quem tem o privilégio de ter uma família amazonense conhece.Acolhimento e calor humano, senso de humor e ironia, tudo junto e misturado com muita comilança e risadas mergulhadas em bandejas de tambaqui na brasa, pirarucu picadinho com farinha de ariri, tucunaré , cupuaçu, buriti, tapioca no café da manhã, praia do japonês no meio da selva, com areia branquinha como se fosse mar. E doces tão doces, como a imensa doçura que as pessoas de lá carregam na alma. Preciso ir sempre à Manaus...É uma questão de compromisso com a vida. Lá, ela sobra...é só ler HISTÓRIAS NÃO REGISTRADAS, de João Bosco B.Araújo. Vocês vão entender....
Comentário: shehryar anwer deixou um novo comentário sobre a sua postagem "FÉRIAS EM MANAUS":
HISTÓRIAS NÃO REGISTRADAS
João Bosco Araújo*
Conversando “miolo de pote” com a prima querida, nascida e criada no Rio de Janeiro, fora da minha vista havia muitos anos, regozijava-me com seu riso solto e ruidoso, a cada “causo” contado, todos eles ligados ao “folclore baré”, geralmente impregnado da leseira, também baré.
Quebrou o ritmo do papo a sua insistente sugestão de que eram fatos que precisavam ser registrados em livro. Na verdade, acho eu, não mereceriam um livro e nem um livro os mereceria. Quem sabe, quando muito, poderiam passar de miolo de pote a miolo de um folheto de cordel, daqueles que os nordestinos produzem em abundância.
De qualquer forma, como a uma prima fraterna que esteve indelevelmente presente na minha história de vida não é possível simplesmente recusar algo, cedo aqui ao seu capricho e registro alguns desses episódios hilários, a priori pedindo perdão a algum familiar dos personagens que venha a se ofender. Fique a certeza de que não houve outra intenção, senão a de agradar à prima.
EPISÓDIO I – O barbeiro Colares, lá da Rua Henrique Martins, que tinha entre os seus clientes o interventor Álvaro Maia, soube que o governante viajaria à Itália e seria recebido, no Vaticano, por Sua Santidade, o Papa Pio XII. Como o barbeiro tinha um filho ordenado padre, esperou a costumeira visita de Álvaro para pedir-lhe que intercedesse junto ao Papa a fim de conseguir para o filho uma promoção a bispo. O “Cabeleira”, como bom político, prometeu fazer o pedido, mas, naturalmente, logo esqueceu o prometido.
Quando retornou, Álvaro Maia foi cobrado na primeira visita à barbearia e não hesitou: - “Ocorreu que quando me ajoelhei para beijar o anel do Papa, S.S. passou a mão na minha cabeça e falou: Álvaro, que cabelo mal cortado! Com isso, não tive mais condição para fazer o pedido...”.
EPISÓDIO II – Gilberto Mestrinho, governador, dava uma entrevista numa televisão em S. Paulo a uma jornalista e defendia a caça aos jacarés, a fim de incrementar a exportação das valiosas peles. Arguido sobre o risco de extinção da espécie, afirmou com segurança que só no lago de Nhamundá havia 38.000 jacarés. Prosseguiu a entrevista e a moça perguntou sobre os yanomamis, que já tinham sido cerca de 200.000 e hoje seriam menos de 10.000. Foi quando o governador perguntou sobre quem tinha contado esses índios e a jornalista prontamente respondeu: - “A mesma pessoa que contou os seus jacarés”.
EPISÓDIO III – Cônego Alcides Peixoto, como de praxe, escolheu um caboclo encorpado para ser o Jesus na Paixão de Cristo que encenava anualmente na Praça da Igreja, em Itacoatiara. Dadas as instruções, quando, sob o sol insuportável, antes da morte, o Cristo pediu água, o lanceiro embebeu a esponja em cachaça para dar forças ao ator, espetou-a na lança e gritou: - “Queres água, toma fel”. Jesus sugou a esponja e gemeu do alto da cruz: -“Mais fel!”.
EPISÓDIO IV – Ah, prima, esqueci daquele governador que pediu sal ao RG do Norte e, ao receber em seu lugar uma carga de cal, lamentou publicamente: - “P... esqueci a cedilha”.
Aí vai, querida prima, alguma coisa do que pediste. O que foi possível, depois de muito espremer, botar neste exíguo espaço.
*Diretor Executivo do Amazonas EM TEMPO.
João Bosco Araújo*
Conversando “miolo de pote” com a prima querida, nascida e criada no Rio de Janeiro, fora da minha vista havia muitos anos, regozijava-me com seu riso solto e ruidoso, a cada “causo” contado, todos eles ligados ao “folclore baré”, geralmente impregnado da leseira, também baré.
Quebrou o ritmo do papo a sua insistente sugestão de que eram fatos que precisavam ser registrados em livro. Na verdade, acho eu, não mereceriam um livro e nem um livro os mereceria. Quem sabe, quando muito, poderiam passar de miolo de pote a miolo de um folheto de cordel, daqueles que os nordestinos produzem em abundância.
De qualquer forma, como a uma prima fraterna que esteve indelevelmente presente na minha história de vida não é possível simplesmente recusar algo, cedo aqui ao seu capricho e registro alguns desses episódios hilários, a priori pedindo perdão a algum familiar dos personagens que venha a se ofender. Fique a certeza de que não houve outra intenção, senão a de agradar à prima.
EPISÓDIO I – O barbeiro Colares, lá da Rua Henrique Martins, que tinha entre os seus clientes o interventor Álvaro Maia, soube que o governante viajaria à Itália e seria recebido, no Vaticano, por Sua Santidade, o Papa Pio XII. Como o barbeiro tinha um filho ordenado padre, esperou a costumeira visita de Álvaro para pedir-lhe que intercedesse junto ao Papa a fim de conseguir para o filho uma promoção a bispo. O “Cabeleira”, como bom político, prometeu fazer o pedido, mas, naturalmente, logo esqueceu o prometido.
Quando retornou, Álvaro Maia foi cobrado na primeira visita à barbearia e não hesitou: - “Ocorreu que quando me ajoelhei para beijar o anel do Papa, S.S. passou a mão na minha cabeça e falou: Álvaro, que cabelo mal cortado! Com isso, não tive mais condição para fazer o pedido...”.
EPISÓDIO II – Gilberto Mestrinho, governador, dava uma entrevista numa televisão em S. Paulo a uma jornalista e defendia a caça aos jacarés, a fim de incrementar a exportação das valiosas peles. Arguido sobre o risco de extinção da espécie, afirmou com segurança que só no lago de Nhamundá havia 38.000 jacarés. Prosseguiu a entrevista e a moça perguntou sobre os yanomamis, que já tinham sido cerca de 200.000 e hoje seriam menos de 10.000. Foi quando o governador perguntou sobre quem tinha contado esses índios e a jornalista prontamente respondeu: - “A mesma pessoa que contou os seus jacarés”.
EPISÓDIO III – Cônego Alcides Peixoto, como de praxe, escolheu um caboclo encorpado para ser o Jesus na Paixão de Cristo que encenava anualmente na Praça da Igreja, em Itacoatiara. Dadas as instruções, quando, sob o sol insuportável, antes da morte, o Cristo pediu água, o lanceiro embebeu a esponja em cachaça para dar forças ao ator, espetou-a na lança e gritou: - “Queres água, toma fel”. Jesus sugou a esponja e gemeu do alto da cruz: -“Mais fel!”.
EPISÓDIO IV – Ah, prima, esqueci daquele governador que pediu sal ao RG do Norte e, ao receber em seu lugar uma carga de cal, lamentou publicamente: - “P... esqueci a cedilha”.
Aí vai, querida prima, alguma coisa do que pediste. O que foi possível, depois de muito espremer, botar neste exíguo espaço.
*Diretor Executivo do Amazonas EM TEMPO.
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
O Papa, a chuva e a lama
Uns chamam de coincidência, outros de destino, outros de acaso.
Ou como disse Shakespeare:
"Entre o céu e a terra existem muito mais coisas do que a nossa vã filosofia pode supor".
Seja lá o que for, é incrivel tudo que vem acontecendo nessa cidade nos últimos meses. Passeatas, manifestações, garra, revolta, pedradas, gas lacrimogênio com bandeiras ao léu, cassetetes e "sou brasileiro , com muito amooooooorrrrrr". Na chuva, na lama, ou numa casinha de sapê , debaixo desse céu risonho e límpido , "desculpem o transtorno, estamos reformando o país."
E como se fosse pouco, veio o Papa,enchendo mais uma vez as ruas, as praias, o mundo todo assistindo de camarote a força da natureza humana expressada no rosto de uma multidão sedenta de ética, decência, humildade e respeito. VIva Francisco, com sua sutileza cortante e contrastante com as caras de pau reinantes que se acotovelam para sair bem na fita que, mais do que queimada, está poída.
Tem problema, não. A chuva lavou a sujeira, a lama simbolizou a nojeira e o vento frio carregou para bem longe nossa desesperança e leseira. O som fantástico ouvido por quem atravessava à pé o túnel em Copacabana, trazia junto a certeza de que a Torre da Babel que invadiu o Rio por uma semana, é apenas um sinal de que uma outra linguagem está se constituindo nesse país e que novos tempos estão chegando, varrendo figuras nefastas que não merecem sequer os guardanapos que usam nas cabeças.São as águas de julho lavando o invernão e a promessa de vida em nosso coração.
Angela Villela
Psicanalista (prosafreudiana.)
Uns chamam de coincidência, outros de destino, outros de acaso.
Ou como disse Shakespeare:
"Entre o céu e a terra existem muito mais coisas do que a nossa vã filosofia pode supor".
Seja lá o que for, é incrivel tudo que vem acontecendo nessa cidade nos últimos meses. Passeatas, manifestações, garra, revolta, pedradas, gas lacrimogênio com bandeiras ao léu, cassetetes e "sou brasileiro , com muito amooooooorrrrrr". Na chuva, na lama, ou numa casinha de sapê , debaixo desse céu risonho e límpido , "desculpem o transtorno, estamos reformando o país."
E como se fosse pouco, veio o Papa,enchendo mais uma vez as ruas, as praias, o mundo todo assistindo de camarote a força da natureza humana expressada no rosto de uma multidão sedenta de ética, decência, humildade e respeito. VIva Francisco, com sua sutileza cortante e contrastante com as caras de pau reinantes que se acotovelam para sair bem na fita que, mais do que queimada, está poída.
Tem problema, não. A chuva lavou a sujeira, a lama simbolizou a nojeira e o vento frio carregou para bem longe nossa desesperança e leseira. O som fantástico ouvido por quem atravessava à pé o túnel em Copacabana, trazia junto a certeza de que a Torre da Babel que invadiu o Rio por uma semana, é apenas um sinal de que uma outra linguagem está se constituindo nesse país e que novos tempos estão chegando, varrendo figuras nefastas que não merecem sequer os guardanapos que usam nas cabeças.São as águas de julho lavando o invernão e a promessa de vida em nosso coração.
Angela Villela
Psicanalista (prosafreudiana.)
sábado, 6 de julho de 2013
HANNAH, FREUD E O BRASIL CONTEMPORÂNEO
Acabo de sair do cinema com o coração ainda arrebatado pela figura emblemática de Hannah Arendt e pensando na coincidência deste filme ser lançado exatamente neste momento político tão significativo para o Brasil.
”O homem perdeu a fé em si mesmo como parceiro de seus pensamentos.
Essa frase dita por Hannah expressa o cerne de sua batalha e é o foco do filme. Ela foi execrada ao afirmar que Eichmann era um simples homem medíocre, que perdera a capacidade de pensar, ao dissociar sua consciência moral de seus atos bárbaros. Ao ser julgado, ele alegou que “apenas cumpria seu dever” e a interpretação dela foi vista pelos judeus como uma absolvição do carrasco nazista. No entanto, o que ela fez foi apenas exercitar seu pensar, procurando entender o que levou aquele homem a não sentir culpa pelas monstruosidades que praticou. Ele era um mero burocrata alienado de qualquer possibilidade reflexiva. O privilégio do ato de pensar se impôs na escrita de Hannah e ela pagou um preço altíssimo por isso. Não é por uma questão aleatória que sua obra está provocando, além do filme, vários artigos e a busca de seus livros e sim, porque poucos pensadores políticos podem ser considerados tão visionários quanto essa extraordinária mulher, quando se trata de refletir sobre a movimentação popular contemporânea, face à política brasileira.. Envolvida pelos acontecimentos extremos de seu tempo, Arendt se chocou com a alienação e não se deixou paralisar. Pelo contrário, ao invés de uma posição contemplativa, escolheu o pensar como ação e modo de existência, produzindo uma obra fantástica que até hoje é um dos instrumentos mais fortes de reflexão sobre o espaço político. Sua escrita é o exemplo vivo de sua atividade, diante da tentativa de calar as vozes que denunciavam o progressivo surgimento de uma “estranha espécie de humanidade”. O vazio de autoridade e o abismo vertiginoso entre o governo e os anseios populares que vivemos hoje, tornam-se mais assustadores ainda, ao contato com o pensamento de Hannah Arendt, por sabermos os desdobramento desse estado de coisas.. Ela sabia que o distanciamento entre as instituições públicas e o homem comum era o caminho mais curto para a alienação. e que o uso do poder de forma perversa e abusiva, era um forte instrumento de manipulação e inibição do livre pensar do homem. Nascida em 1906, em plena Alemanha fragmentada, constituiu como uma de suas atividades mais contundentes, a incansável tentativa de entender as bases que desencadearam o totalitarismo. Ao denunciar a usurpação obscena da verdadeira política, ela produziu, como poucos, uma análise “mediúnica” dos acontecimentos contemporâneos. É como se ela estivesse vivendo o nosso aqui e agora, nos alertando para o fato de que a ausência do verdadeiro pensar-político pode ser a lacuna ideal para uma tragédia maior. Havia nela uma impaciência com os intelectuais de sua época, que pareciam não enxergar as evidências e a gravidade do que estava acontecendo. Ela cobrava deles uma posição diante da dolorosa constatação de que uma acelerada transmutação de valores e quebra de tradições estava mudando o curso da história. E isso a apavorava. Ela intuia que nessa descontinuidade, morava o risco da perda de toda e qualquer dignidade do domínio político e que era preciso uma ação radical que interditasse o que ela, com toda propriedade, intitulou de “banalidade do mal”. A corrupção no Brasil e a impunidade reinante são exemplos perfeitos dessa expressão. “As Origens do Totalitarismo” (1951) e “A condição humana” (1958 ), funcionam como legado de sua obra e fonte inesgotável para se pensar nossa época, plena de questões extremamente perturbadoras.
Tanto Freud como Hannah se inseriram na história através de um pensamento critico, contribuindo de forma inestimável para o atravessamento dos discursos políticos. Na atualidade, Giorgio Agambem alerta que uma democracia só sobrevive se o seu fundamento, o povo, enquanto corpo político, estiver atento e ativo. Segundo ele, as novas relações biopolíticas entre indivíduos e Estado transformaram o que se convencionou chamar de povo, em população. A massa que invadiu as ruas do país, finalmente saiu desse lugar e mostrou que não está disposta a se submeter mais aos desmandos vergonhosos dos podres poderes. Freud, em “ O Futuro de uma Ilusão” dizia que “as massas podem ser induzidas ao trabalho e a suportar as renúncias que a existência impõe, se forem influenciados por indivíduos que possam fornecer um exemplo e a quem reconheçam como líderes”. A percepção profunda dele sobre as massas não tinha um caráter moral. Ele estava pensando em intensidades e já antevia que essas forças, à deriva, poderiam ganhar formas expressivas revolucionárias por conta de sua potência e indeterminação. Freud e Marx nos ensinaram que toda e qualquer teoria não tem validade se não for a expressão de uma prática social, continuamente refletida e interrogada e os principais conceitos freudianos não podem estar circunscritos, apenas, aos limites do psiquismo individual. É preciso se apropriar deles para a compreensão dos atuais fenômenos e dos elementos essenciais sobre a natureza do vínculo social,. Derrida, numa de suas visitas ao Brasil, enfatizou o quanto precisamos repolitizar as coisas, já que o político não se reduz ao Estado. É preciso criar um novo conceito de política e que em oposição à soberania do Estado, a Psicanálise deveria defender a soberania do sujeito. Que os psicanalistas tomem para si esse alerta, entrando na cena política através do que ela tem de mais precioso, que é a capacidade de propiciar reflexões. Inclusive, para além dos divãs.
”O homem perdeu a fé em si mesmo como parceiro de seus pensamentos.
Essa frase dita por Hannah expressa o cerne de sua batalha e é o foco do filme. Ela foi execrada ao afirmar que Eichmann era um simples homem medíocre, que perdera a capacidade de pensar, ao dissociar sua consciência moral de seus atos bárbaros. Ao ser julgado, ele alegou que “apenas cumpria seu dever” e a interpretação dela foi vista pelos judeus como uma absolvição do carrasco nazista. No entanto, o que ela fez foi apenas exercitar seu pensar, procurando entender o que levou aquele homem a não sentir culpa pelas monstruosidades que praticou. Ele era um mero burocrata alienado de qualquer possibilidade reflexiva. O privilégio do ato de pensar se impôs na escrita de Hannah e ela pagou um preço altíssimo por isso. Não é por uma questão aleatória que sua obra está provocando, além do filme, vários artigos e a busca de seus livros e sim, porque poucos pensadores políticos podem ser considerados tão visionários quanto essa extraordinária mulher, quando se trata de refletir sobre a movimentação popular contemporânea, face à política brasileira.. Envolvida pelos acontecimentos extremos de seu tempo, Arendt se chocou com a alienação e não se deixou paralisar. Pelo contrário, ao invés de uma posição contemplativa, escolheu o pensar como ação e modo de existência, produzindo uma obra fantástica que até hoje é um dos instrumentos mais fortes de reflexão sobre o espaço político. Sua escrita é o exemplo vivo de sua atividade, diante da tentativa de calar as vozes que denunciavam o progressivo surgimento de uma “estranha espécie de humanidade”. O vazio de autoridade e o abismo vertiginoso entre o governo e os anseios populares que vivemos hoje, tornam-se mais assustadores ainda, ao contato com o pensamento de Hannah Arendt, por sabermos os desdobramento desse estado de coisas.. Ela sabia que o distanciamento entre as instituições públicas e o homem comum era o caminho mais curto para a alienação. e que o uso do poder de forma perversa e abusiva, era um forte instrumento de manipulação e inibição do livre pensar do homem. Nascida em 1906, em plena Alemanha fragmentada, constituiu como uma de suas atividades mais contundentes, a incansável tentativa de entender as bases que desencadearam o totalitarismo. Ao denunciar a usurpação obscena da verdadeira política, ela produziu, como poucos, uma análise “mediúnica” dos acontecimentos contemporâneos. É como se ela estivesse vivendo o nosso aqui e agora, nos alertando para o fato de que a ausência do verdadeiro pensar-político pode ser a lacuna ideal para uma tragédia maior. Havia nela uma impaciência com os intelectuais de sua época, que pareciam não enxergar as evidências e a gravidade do que estava acontecendo. Ela cobrava deles uma posição diante da dolorosa constatação de que uma acelerada transmutação de valores e quebra de tradições estava mudando o curso da história. E isso a apavorava. Ela intuia que nessa descontinuidade, morava o risco da perda de toda e qualquer dignidade do domínio político e que era preciso uma ação radical que interditasse o que ela, com toda propriedade, intitulou de “banalidade do mal”. A corrupção no Brasil e a impunidade reinante são exemplos perfeitos dessa expressão. “As Origens do Totalitarismo” (1951) e “A condição humana” (1958 ), funcionam como legado de sua obra e fonte inesgotável para se pensar nossa época, plena de questões extremamente perturbadoras.
Tanto Freud como Hannah se inseriram na história através de um pensamento critico, contribuindo de forma inestimável para o atravessamento dos discursos políticos. Na atualidade, Giorgio Agambem alerta que uma democracia só sobrevive se o seu fundamento, o povo, enquanto corpo político, estiver atento e ativo. Segundo ele, as novas relações biopolíticas entre indivíduos e Estado transformaram o que se convencionou chamar de povo, em população. A massa que invadiu as ruas do país, finalmente saiu desse lugar e mostrou que não está disposta a se submeter mais aos desmandos vergonhosos dos podres poderes. Freud, em “ O Futuro de uma Ilusão” dizia que “as massas podem ser induzidas ao trabalho e a suportar as renúncias que a existência impõe, se forem influenciados por indivíduos que possam fornecer um exemplo e a quem reconheçam como líderes”. A percepção profunda dele sobre as massas não tinha um caráter moral. Ele estava pensando em intensidades e já antevia que essas forças, à deriva, poderiam ganhar formas expressivas revolucionárias por conta de sua potência e indeterminação. Freud e Marx nos ensinaram que toda e qualquer teoria não tem validade se não for a expressão de uma prática social, continuamente refletida e interrogada e os principais conceitos freudianos não podem estar circunscritos, apenas, aos limites do psiquismo individual. É preciso se apropriar deles para a compreensão dos atuais fenômenos e dos elementos essenciais sobre a natureza do vínculo social,. Derrida, numa de suas visitas ao Brasil, enfatizou o quanto precisamos repolitizar as coisas, já que o político não se reduz ao Estado. É preciso criar um novo conceito de política e que em oposição à soberania do Estado, a Psicanálise deveria defender a soberania do sujeito. Que os psicanalistas tomem para si esse alerta, entrando na cena política através do que ela tem de mais precioso, que é a capacidade de propiciar reflexões. Inclusive, para além dos divãs.
Assinar:
Postagens (Atom)