CAROLINA NINÔ
Não sei o que se passa
E porque haveria de passar?
o que o coração sente
a cabeça desconhece...
Tantas coisas passaram em minhas mãos,
diante dos meus olhos
e eu não vi
e eu não senti
Pelo simples fato de desconhecer
que sentido tem em sentir.
domingo, 17 de junho de 2012
DEUSA, SOLITÁRIA, ETÍLICA, PROCURA...
CAROLINA NINÔ
É como se eu tivesse entrado num túnel e tivessem bloqueado
a saída....
É assim que me sinto quando não estás por perto
quando minha cama se veste de deserto
O meu nu se cobre
E a minha Afrodite
vai dormir embriagada e triste.
É como se eu tivesse entrado num túnel e tivessem bloqueado
a saída....
É assim que me sinto quando não estás por perto
quando minha cama se veste de deserto
O meu nu se cobre
E a minha Afrodite
vai dormir embriagada e triste.
sexta-feira, 15 de junho de 2012
NA MARGEM
EDNA MÉDICI
No seu rosto algumas mulheres mergulham desabaladamente.Outras, mais cautelosas, já tendo apanhado da vida,
chegam pisando de lado, aproximam-se devagar.
Começam por molhar os dedos, depois, com um olhar que se quer
distraído, dispõem-se a banhar os pés (são estas, talvez, as que correm maior perigo – pois, ao senti-las reticentes, suas águas se temperam de encantos luminosos, flutuantes, evanescentes, e em breve se estendem, em pequenas ondas graciosas, ao redor dos tornozelos. Quando dão por elas – pronto!- já estão mergulhadas até o pescoço).
Outras, ainda, (as tolas) acreditam possuir alguma qualidade especial que as tornará necessárias ao mistério das suas profundezas. Como se os seus corpos, ao se banharem naquele líquido, estivessem, por contraste, oferecendo a ele alguma coisa de útil.
Pura ilusão. Não percebem, as desavisadas, as pretensiosas, que, no contato íntimo da sua água com a pele, ela nunca, propriamente, as penetra. Envolve, talvez. Adula, acaricia. Aquece. Recebe, torna macia e cheia de luz – mas nunca, nunca a ela se mistura.
Aos seus olhos, portanto, cada mulher não passa de um corpo, massa sólida a se deslocar de um lado para o outro, com maior graça ou menor grau de desconforto, mas ainda e apenas isso: um objeto fugidio, que nada tira nem em nada lhe acrescenta – um acaso do movimento que, meramente, se dá.
Não eu. Eu não sou como nenhuma _ nem uma única _ dessas tristes mulheres.
Conheço e palmilho, a cada dia, a completa extensão da sua orla. Percorro, de pés descalços, sua órbita, tropeçando em pequenas pedras, cortando a pele no espinhal. Há ocasiões em que sangro profusamente, e é preciso que pare e me sente para descansar em alguma pedra da região desértica que circunda o seu perímetro. Nestas vezes, tenho oportunidade de observar de perto o banho das outras mulheres: seus movimentos, a princípio aéreos e leves; tremeluzindo no rosto, a surpresa e a delícia iniciais; a seguir, o despontar do desconforto, e nas sobrancelhas franzidas, a breve desconfiança da promessa de saciedade que nunca se realiza. E, logo, ao constatarem a perda do próprio reflexo, os músculos que se retesam, os esgares aterrorizantes, a tentativa de fuga entre grunhidos – apenas para, no fim, o corpo, como um menir, ser tragado, inerte, para a areia escura lá no fundo.
E é só por isso _ por ter assistido tantas e tantas vezes a este terrível espetáculo
que reúno em mim as forças para manter a disciplina: por maior que seja a sede, por mais que me deforme e arda no rosto esta máscara de barro ressecado (à noite, sonho com o bálsamo do seu úmido abraço), em suas águas não entrarei.
No seu rosto algumas mulheres mergulham desabaladamente.Outras, mais cautelosas, já tendo apanhado da vida,
chegam pisando de lado, aproximam-se devagar.
Começam por molhar os dedos, depois, com um olhar que se quer
distraído, dispõem-se a banhar os pés (são estas, talvez, as que correm maior perigo – pois, ao senti-las reticentes, suas águas se temperam de encantos luminosos, flutuantes, evanescentes, e em breve se estendem, em pequenas ondas graciosas, ao redor dos tornozelos. Quando dão por elas – pronto!- já estão mergulhadas até o pescoço).
Outras, ainda, (as tolas) acreditam possuir alguma qualidade especial que as tornará necessárias ao mistério das suas profundezas. Como se os seus corpos, ao se banharem naquele líquido, estivessem, por contraste, oferecendo a ele alguma coisa de útil.
Pura ilusão. Não percebem, as desavisadas, as pretensiosas, que, no contato íntimo da sua água com a pele, ela nunca, propriamente, as penetra. Envolve, talvez. Adula, acaricia. Aquece. Recebe, torna macia e cheia de luz – mas nunca, nunca a ela se mistura.
Aos seus olhos, portanto, cada mulher não passa de um corpo, massa sólida a se deslocar de um lado para o outro, com maior graça ou menor grau de desconforto, mas ainda e apenas isso: um objeto fugidio, que nada tira nem em nada lhe acrescenta – um acaso do movimento que, meramente, se dá.
Não eu. Eu não sou como nenhuma _ nem uma única _ dessas tristes mulheres.
Conheço e palmilho, a cada dia, a completa extensão da sua orla. Percorro, de pés descalços, sua órbita, tropeçando em pequenas pedras, cortando a pele no espinhal. Há ocasiões em que sangro profusamente, e é preciso que pare e me sente para descansar em alguma pedra da região desértica que circunda o seu perímetro. Nestas vezes, tenho oportunidade de observar de perto o banho das outras mulheres: seus movimentos, a princípio aéreos e leves; tremeluzindo no rosto, a surpresa e a delícia iniciais; a seguir, o despontar do desconforto, e nas sobrancelhas franzidas, a breve desconfiança da promessa de saciedade que nunca se realiza. E, logo, ao constatarem a perda do próprio reflexo, os músculos que se retesam, os esgares aterrorizantes, a tentativa de fuga entre grunhidos – apenas para, no fim, o corpo, como um menir, ser tragado, inerte, para a areia escura lá no fundo.
E é só por isso _ por ter assistido tantas e tantas vezes a este terrível espetáculo
que reúno em mim as forças para manter a disciplina: por maior que seja a sede, por mais que me deforme e arda no rosto esta máscara de barro ressecado (à noite, sonho com o bálsamo do seu úmido abraço), em suas águas não entrarei.
sexta-feira, 8 de junho de 2012
O DIA DOS NAMORADOS E AS MÚLTIPLAS FACES DO AMOR
1-A EXPERIÊNCIA ERÓTICA
O tema está no ar ou como diz a música: "Love is in the air".
Esse blog, então, postará alguns pequenos textos que dizem respeito ao amor e suas faces paradoxais.Vamos falar sobre inseguranças, posse, ciúme, temporalidades, rítmos e diferenças.Vamos falar, também, sobre dor, perdas e luto. E é claro, sobre ódios. Vide texto já publicado sobre nossas partes malditas. E de poesia, que ninguém é de ferro, não é verdade?
Comecemos pelo erotismo.
O universo das sensações revela as mais obscuras, as mais microscópicas e as mais exacerbadas características de um ser . Os escritores, os poetas , os músicos, os artistas de um modo geral, são os mais genuínos exploradores desse universo, que lhes oferece matéria prima para a criação. Fernando Pessoa levava tão ao pé da letra essa concepção, que dizia, através de um de seus heterônimos, Alberto Caeiro, que “ pensar é estar doente dos olhos...Eu não tenho filosofia. Tenho sentidos.” Também Kant privilegiou as sensações ao desvendar os conceitos de Belo e Sublime. Ele designa o gosto como a noção central do que ele chama de apuro ou refinamento dos sentimentos. A degustação, por exemplo, de um bom vinho e a subsequente apreciação do mesmo, demarcam, com certeza, universos sensíveis diferentes. O gosto apurado é aquele sentido que nos põe em contato com a alma e com o tempo. Um alimento sorvido na pressa não pode ter o mesmo sabor daquele que passa pela experiência da duração, condição fundamental das impressões mais profundas e refinadas. A rapidez é a base das impressões fugazes e a lentidão, a sustentação daquelas que se fixam por ordem de excelência. É só no momento que se sorve lentamente um vinho que se pode apreciar seu perfume e é preciso um intervalo de tempo para que se possa, verdadeiramente, classificá-lo. A sensação, então, refletida após um julgamento da alma , é fruto de um estágio da evolução do tempo gasto na experiência propriamente dita.
O vinho, bebido e cantado durante séculos, é um ótimo referente do erotismo. Os árabes, através da arte de sua destilação, extraiam o perfume das flores, sobretudo das rosas tão celebradas em seus escritos. Isso nos inspira a pensar se a arte de sorver lentamente um vinho não poderia ser equiparada `a verdadeira experiência erótica, onde o prazer não vem da sofreguidão ou da mera voracidade dos instintos que precisam ser saciados na angústia e na pressa, mas sim do sabor que cada gole pode propiciar. É só na temporalidade que vem através das sensações, que se pode extrair o sentido mais profundo do erotismo. A pressa apazigua os instintos, mas não sacia o desejo. Este diz respeito ao campo do refinamento. Coisa difícil nesses tempos de transitoriedade e superficialidade, signos que comandam a modernidade e que caracterizam esses tristes trópicos, onde a urgência é o vetor da maioria das relações.(continua)
O tema está no ar ou como diz a música: "Love is in the air".
Esse blog, então, postará alguns pequenos textos que dizem respeito ao amor e suas faces paradoxais.Vamos falar sobre inseguranças, posse, ciúme, temporalidades, rítmos e diferenças.Vamos falar, também, sobre dor, perdas e luto. E é claro, sobre ódios. Vide texto já publicado sobre nossas partes malditas. E de poesia, que ninguém é de ferro, não é verdade?
Comecemos pelo erotismo.
O universo das sensações revela as mais obscuras, as mais microscópicas e as mais exacerbadas características de um ser . Os escritores, os poetas , os músicos, os artistas de um modo geral, são os mais genuínos exploradores desse universo, que lhes oferece matéria prima para a criação. Fernando Pessoa levava tão ao pé da letra essa concepção, que dizia, através de um de seus heterônimos, Alberto Caeiro, que “ pensar é estar doente dos olhos...Eu não tenho filosofia. Tenho sentidos.” Também Kant privilegiou as sensações ao desvendar os conceitos de Belo e Sublime. Ele designa o gosto como a noção central do que ele chama de apuro ou refinamento dos sentimentos. A degustação, por exemplo, de um bom vinho e a subsequente apreciação do mesmo, demarcam, com certeza, universos sensíveis diferentes. O gosto apurado é aquele sentido que nos põe em contato com a alma e com o tempo. Um alimento sorvido na pressa não pode ter o mesmo sabor daquele que passa pela experiência da duração, condição fundamental das impressões mais profundas e refinadas. A rapidez é a base das impressões fugazes e a lentidão, a sustentação daquelas que se fixam por ordem de excelência. É só no momento que se sorve lentamente um vinho que se pode apreciar seu perfume e é preciso um intervalo de tempo para que se possa, verdadeiramente, classificá-lo. A sensação, então, refletida após um julgamento da alma , é fruto de um estágio da evolução do tempo gasto na experiência propriamente dita.
O vinho, bebido e cantado durante séculos, é um ótimo referente do erotismo. Os árabes, através da arte de sua destilação, extraiam o perfume das flores, sobretudo das rosas tão celebradas em seus escritos. Isso nos inspira a pensar se a arte de sorver lentamente um vinho não poderia ser equiparada `a verdadeira experiência erótica, onde o prazer não vem da sofreguidão ou da mera voracidade dos instintos que precisam ser saciados na angústia e na pressa, mas sim do sabor que cada gole pode propiciar. É só na temporalidade que vem através das sensações, que se pode extrair o sentido mais profundo do erotismo. A pressa apazigua os instintos, mas não sacia o desejo. Este diz respeito ao campo do refinamento. Coisa difícil nesses tempos de transitoriedade e superficialidade, signos que comandam a modernidade e que caracterizam esses tristes trópicos, onde a urgência é o vetor da maioria das relações.(continua)
terça-feira, 5 de junho de 2012
A PARTE MALDITA QUE NOS HABITA
“Não me apavoram os vastos espaços abertos entre estrelas, além da raça humana. Vem de dentro de mim, mais perto, esse temor a meu próprio deserto. “( Robert Frost)
Apesar de vivermos num país que hoje passa por uma espécie de refluxo econômico semelhante ao que chamamos de “idade de ouro” (até quando?), é impressionante como por outro lado, essa época está tão marcada pela palavra destrutividade. Há poucos meses atrás ficamos chocados com o desabamento dos prédios no centro da cidade, cena assustadoramente simbólica de um tempo pleno de transgressões e queda de valores. As janelas irregularmente colocadas e as vigas desestruturadas , produziram um vazio politicamente obsceno, onde, para variar, “a culpa foi dos outros”. Terremoto na Itália e também aqui, onde os valores caem por terra. Tudo que era sólido está se desmanchando no ar. O mundo não parece estar acabando e sim despencando... Diariamente, somos espectadores de movimentos que nos tiram da superfície e nos fazem mergulhar em abismos silenciosos, em obscuridades e contradições que constituem uma estranha espécie de humanidade que surge por trás das máscaras da perversão . Pela mídia, a tragédia humana torna-se visível em escala mundial, misturando a “diversão compulsiva à publicidade compulsória”, expressão muito bem usada numa crônica recente de Francisco Bosco. As compulsões grassam, na variedade de suas extensões e fazem parte do nosso cotidiano, revelando o embate permanente e ambíguo entre as forças que nos vinculam à vida e às partes malditas que nos habitam. . Essa ambiguidade que caracteriza nossas políticas e nossas escolhas, faz com que a perversão seja um “fenômeno flexível”, que se encaixa perfeitamente em seu lema ” eu sei, mas mesmo assim...”. ou como bem disse Hannah Arendt, na simplificação que leva à banalidade do mal. E pior ainda é ter que engolir a racionalidade que reveste os discursos a respeito dessas banalizações. Nesse sentido, são inúmeras as montagens perversas que nos remetem ao vasto campo das compulsões, onde não existem sujeitos e sim assujeitados, onde não existe autonomia e sim a obediência à imperativos categóricos. Lá dentro, na obscuridade de cada um de nós, há uma voz que diz: faça! Quem comanda as ações é o inconsciente, cuja linguagem não atende aos comandos da razão. Ele é movido por outras demandas, que vem de lugares múltiplos. São forças interagindo, tomando formas expressivas de intensidade visceral, que expressam potências em virtualidade. De que adianta, por exemplo, dizer a um fumante que o cigarro faz mal e a um alcólatra que o excesso de álcool pode levá-lo a uma cirrose? Da mesma forma, será possível dizer a uma mulher “rodriguianamente” apaixonada, que aquele homem não presta? E vice versa? Que efeitos uma fala pode surtir em quem precisa comprar aquele sapatinho, apesar de saber que ele, provavelmente, não vai caber num armário que já abriga uns trezentos pares? E a um jogador famoso, que seus sucessivos desvios de conduta vão transformá-lo num fracassado? De que adianta dizer a alguém que sofre de anorexia, que é preciso comer, quando o próprio corpo não exerce a função de colocar limites entre o dentro e o fora?
Do político corrupto, que rouba dinheiro de escolas e hospitais, à cultura da drogadição, o ilegal caminha ao lado do legal. O alcolismo, por exemplo, não se apresenta como fora da lei, mas é tão ou mais comprometedor do que a maconha, assim como comprometidos são “suas excelências” quando falam do lugar próprio da lei e os juízes desviantes, que encobertos pela toga criam exceções à lei dentro da lei. A perversão é o avesso do bem ético, já que o ato nega a norma. Daí a idéia de desvio.
E nós, o que fazemos de nossas partes malditas? Quem se atreve a reconhecê-las?
Cada um de nós possui suas parcialidades sombrias. Somos sádicos e exibicionistas de vez em quando, masoquistas e voyeristas um outro tanto. Dentro de nós moram todas as possibilidades e intenções, disfarçadas ou não. Somos humanos, demasiadamente humanos, como dizia Nietzsche. Quantas vezes colocamos o outro em posições ordinárias e incômodas? E quantas vezes exercemos os vários outros que habitam em nós e que se satisfazem com pequenas ou grandes transgressões? O que dizer da inveja acompanhada da crueldade, que permeia muitas vezes as relações? Na realidade, em termos mais amplos, qual sociedade não possui estéticas pornográficas, em suas dissociações e transgressões políticas? Existe exercício de poder fora da perversão?
Evidentemente, há graus que diferenciam patologias graves de um simples sintoma e está aí a psicanálise para diferenciar e ajudar quem cai nos excessos. Pois, na verdade, a questão maldita que não cala é psicanalítica: quem nunca cometeu um delito que atire a primeira pedra nessa tela-espelho. E nesse desafio não está implícita uma apologia da perversão, mas está explícita uma provocação à interiorização. Chega de culpar os outros....
Apesar de vivermos num país que hoje passa por uma espécie de refluxo econômico semelhante ao que chamamos de “idade de ouro” (até quando?), é impressionante como por outro lado, essa época está tão marcada pela palavra destrutividade. Há poucos meses atrás ficamos chocados com o desabamento dos prédios no centro da cidade, cena assustadoramente simbólica de um tempo pleno de transgressões e queda de valores. As janelas irregularmente colocadas e as vigas desestruturadas , produziram um vazio politicamente obsceno, onde, para variar, “a culpa foi dos outros”. Terremoto na Itália e também aqui, onde os valores caem por terra. Tudo que era sólido está se desmanchando no ar. O mundo não parece estar acabando e sim despencando... Diariamente, somos espectadores de movimentos que nos tiram da superfície e nos fazem mergulhar em abismos silenciosos, em obscuridades e contradições que constituem uma estranha espécie de humanidade que surge por trás das máscaras da perversão . Pela mídia, a tragédia humana torna-se visível em escala mundial, misturando a “diversão compulsiva à publicidade compulsória”, expressão muito bem usada numa crônica recente de Francisco Bosco. As compulsões grassam, na variedade de suas extensões e fazem parte do nosso cotidiano, revelando o embate permanente e ambíguo entre as forças que nos vinculam à vida e às partes malditas que nos habitam. . Essa ambiguidade que caracteriza nossas políticas e nossas escolhas, faz com que a perversão seja um “fenômeno flexível”, que se encaixa perfeitamente em seu lema ” eu sei, mas mesmo assim...”. ou como bem disse Hannah Arendt, na simplificação que leva à banalidade do mal. E pior ainda é ter que engolir a racionalidade que reveste os discursos a respeito dessas banalizações. Nesse sentido, são inúmeras as montagens perversas que nos remetem ao vasto campo das compulsões, onde não existem sujeitos e sim assujeitados, onde não existe autonomia e sim a obediência à imperativos categóricos. Lá dentro, na obscuridade de cada um de nós, há uma voz que diz: faça! Quem comanda as ações é o inconsciente, cuja linguagem não atende aos comandos da razão. Ele é movido por outras demandas, que vem de lugares múltiplos. São forças interagindo, tomando formas expressivas de intensidade visceral, que expressam potências em virtualidade. De que adianta, por exemplo, dizer a um fumante que o cigarro faz mal e a um alcólatra que o excesso de álcool pode levá-lo a uma cirrose? Da mesma forma, será possível dizer a uma mulher “rodriguianamente” apaixonada, que aquele homem não presta? E vice versa? Que efeitos uma fala pode surtir em quem precisa comprar aquele sapatinho, apesar de saber que ele, provavelmente, não vai caber num armário que já abriga uns trezentos pares? E a um jogador famoso, que seus sucessivos desvios de conduta vão transformá-lo num fracassado? De que adianta dizer a alguém que sofre de anorexia, que é preciso comer, quando o próprio corpo não exerce a função de colocar limites entre o dentro e o fora?
Do político corrupto, que rouba dinheiro de escolas e hospitais, à cultura da drogadição, o ilegal caminha ao lado do legal. O alcolismo, por exemplo, não se apresenta como fora da lei, mas é tão ou mais comprometedor do que a maconha, assim como comprometidos são “suas excelências” quando falam do lugar próprio da lei e os juízes desviantes, que encobertos pela toga criam exceções à lei dentro da lei. A perversão é o avesso do bem ético, já que o ato nega a norma. Daí a idéia de desvio.
E nós, o que fazemos de nossas partes malditas? Quem se atreve a reconhecê-las?
Cada um de nós possui suas parcialidades sombrias. Somos sádicos e exibicionistas de vez em quando, masoquistas e voyeristas um outro tanto. Dentro de nós moram todas as possibilidades e intenções, disfarçadas ou não. Somos humanos, demasiadamente humanos, como dizia Nietzsche. Quantas vezes colocamos o outro em posições ordinárias e incômodas? E quantas vezes exercemos os vários outros que habitam em nós e que se satisfazem com pequenas ou grandes transgressões? O que dizer da inveja acompanhada da crueldade, que permeia muitas vezes as relações? Na realidade, em termos mais amplos, qual sociedade não possui estéticas pornográficas, em suas dissociações e transgressões políticas? Existe exercício de poder fora da perversão?
Evidentemente, há graus que diferenciam patologias graves de um simples sintoma e está aí a psicanálise para diferenciar e ajudar quem cai nos excessos. Pois, na verdade, a questão maldita que não cala é psicanalítica: quem nunca cometeu um delito que atire a primeira pedra nessa tela-espelho. E nesse desafio não está implícita uma apologia da perversão, mas está explícita uma provocação à interiorização. Chega de culpar os outros....
domingo, 3 de junho de 2012
POR FAVOR, DESLIGUEM SEUS CELULARES E AS BOCAS, TAMBÉM
Estas as palavras que deveriam ser lidas nas telas, em meio aos avisos que antecedem a maioria das projeções cinematográficas. Esse blog abre campanha e espera adeptos. Porque é impressionante como as pessoas falam no cinema, atualmente... Tal falta de respeito e educação, apenas espelha uma das faces de um dos piores sintomas contemporâneos: a confusão entre o que é da ordem do íntimo e o que é da ordem do público. Ao profanar o sagrado direito de quem paga um ingresso para assistir em silêncio a um belo filme, os falantes invadem sem cerimônia os pagantes, agindo como se estivessem esparramados nos sofás de suas casas, diante dos mais que perfeitos hometheatres que a modernidade propicia, transformando as salas de projeção na “casa da mãe Joana” . O advento das Tvs a cabo e dos DVDs, veio a serviço dessa verborragia que assola o escurinho dos cinemas e que acaba com toda e qualquer possibilidade de quem quer apenas exercer o mais simples dos prazeres, ou seja, a abstração que o cinema produz Como se não bastassem os gigantescos sacos de pipoca e o proct-proct que leva à loucura o espectador que está ao lado, com seu discreto e silencioso dropsinho... Porque os distribuidores não colocam nos avisos que antecedem o filme, o pedido respeitoso de SILÊNCIO ?
Nesse final de semana, vivi na carne essa fatídica experiência, com direito a todos os requintes. Fui assistir a um filme belíssimo, “Apenas uma noite”( Last night), pleno de pausas eloqüentes, ritmos que acompanham um tema que existe desde que o mundo é mundo, ou seja, as injunções do desejo, as escolhas que ele impõe ao amor e a dor que disso advém, tendo como pano de fundo um casal,suas dúvidas e opções.Paralelo ao que se passava na tela, uma outra cena se arrastava: entre uma pipoca e outra, campainhas de celulares tocavam, bocas não se fechavam e emitiam comentários inacreditáveis ao longo de toda a projeção, alguns recheados de preconceitos, outros de pura narrativa do que viam. Tipo: “o que será que eles vão fazer agora?.” “ ..ele mergulhou na piscina de camisa?...” ele vai dar um flagra nela...(????).
De nada valeram os “psius”e sequer a mudança de lugar, pois a mesma cena se repetia nas cadeiras vazias que restavam. Em suma, o que era prazer, virou suplício. E é nisso que vem se transformando o ato de ir ao cinema.
Buñuel, um dos maiores gênios da sétima arte, dizia: “O cinema é como um sonho, que por seu próprio mecanismo nos abre uma pequena janela sobre o prolongamento da realidade. Minha aspiração como espectador de cinema, é descobrir, através de um filme, qualquer coisa que não se pode ver na realidade objetiva.”
Nesse sentido, ele equiparava a experiência subjetiva que um sujeito tem diante da tela, à expansão psíquica que Freud propiciou com a descoberta do inconsciente. Tanto um quanto outro, falavam de algo que inclui a introspecção e o silêncio. Não é à toa que tantos cineastas se aproveitaram da aproximação entre a psicanálise e o cinema.
Não há concentração, não há abstração, não há exercício possível de interioridade que resista à compulsiva tagarelice que tomou de assalto o mais precioso refúgio daqueles que, ainda, apesar de tudo, insistem em sonhar de olhos bem abertos.
Nesse final de semana, vivi na carne essa fatídica experiência, com direito a todos os requintes. Fui assistir a um filme belíssimo, “Apenas uma noite”( Last night), pleno de pausas eloqüentes, ritmos que acompanham um tema que existe desde que o mundo é mundo, ou seja, as injunções do desejo, as escolhas que ele impõe ao amor e a dor que disso advém, tendo como pano de fundo um casal,suas dúvidas e opções.Paralelo ao que se passava na tela, uma outra cena se arrastava: entre uma pipoca e outra, campainhas de celulares tocavam, bocas não se fechavam e emitiam comentários inacreditáveis ao longo de toda a projeção, alguns recheados de preconceitos, outros de pura narrativa do que viam. Tipo: “o que será que eles vão fazer agora?.” “ ..ele mergulhou na piscina de camisa?...” ele vai dar um flagra nela...(????).
De nada valeram os “psius”e sequer a mudança de lugar, pois a mesma cena se repetia nas cadeiras vazias que restavam. Em suma, o que era prazer, virou suplício. E é nisso que vem se transformando o ato de ir ao cinema.
Buñuel, um dos maiores gênios da sétima arte, dizia: “O cinema é como um sonho, que por seu próprio mecanismo nos abre uma pequena janela sobre o prolongamento da realidade. Minha aspiração como espectador de cinema, é descobrir, através de um filme, qualquer coisa que não se pode ver na realidade objetiva.”
Nesse sentido, ele equiparava a experiência subjetiva que um sujeito tem diante da tela, à expansão psíquica que Freud propiciou com a descoberta do inconsciente. Tanto um quanto outro, falavam de algo que inclui a introspecção e o silêncio. Não é à toa que tantos cineastas se aproveitaram da aproximação entre a psicanálise e o cinema.
Não há concentração, não há abstração, não há exercício possível de interioridade que resista à compulsiva tagarelice que tomou de assalto o mais precioso refúgio daqueles que, ainda, apesar de tudo, insistem em sonhar de olhos bem abertos.
segunda-feira, 14 de maio de 2012
OS POLÍTICOS NO ESPELHO DO ROSA
"Demóstenes".
Geralmente, quando ouvimos um som, uma palavra, associamos a algo ou alguém.
A primeira vez que ouvi o nome "Demóstenes", associei a um personagem da Grécia Antiga.
Quando vi Demóstenes, ainda não associei o visto a alguma figura incomum. Pelo contrário, vi um político comum
Só quando li sobre Demóstenes é que comecei a associá-lo ao elementar e primordial contemporâneo, isto é, à idéia de onipotência que assola nossos cotidianos. Demóstenes presentifica um fenômeno recorrente que se refere a aptidão de,duplicar seu ser e o tomar.como verdade.Exemplo:ao se ver exposto frente às gravações, ele disse: "Esse não sou eu". Quem seria ele então? Esse ou o outro?
É impressionante a quantidade de duplos, triplos, etc... na cena nacional. Hoje, nos relacionamos com fatos políticos sempre com essa dimensão de perplexidade, com esse sentimento de estranheza, sem nos darmos conta de que estamos diante de algo grande demais para conhecermos inteiramente, pois estamos nos relacionando com uma gama imensa de sintomas. Diariamente, nossos ouvidos são invadidos por negações de eus. Somos surpreendidos por outras faces que se revelam nas ironias do destino. Poderíamos dizer que nunca o DSM (manual para profissionais da área da saúde mental) foi tão útil à mídia, na cobertura de assuntos políticos. Seriam todos perversos, psicóticos, esquizo-paranóides? É possível encontrar um lugar onde a política seja revestida de um mínimo de saúde mental e decência? Se hoje clamamos por alguma normalidade na vida pública, é no sentido de uma normalização que implique num mínimo de critérios éticos, coerentes com o que já se denominou de “um fazer político”.
Clément Rosset, filósofo francês, deveria ser lido por Demós-tenes e outros, na medida em que trabalha de forma admirável esse desdobramento de personalidade, que aponta para graves fenômenos psicopatológicos. Ele diz que "o narcisista sofre por não se amar; ele só ama a sua representação....No par maléfico que une o eu a um outro fantasmático, o real não está do lado do eu, mas sim do lado do fantasma..... O eu é um outro, a verdadeira vida está ausente". Para Rosset o "pior erro para aquele que julga ser o seu duplo, mas que é na realidade o original que ele próprio duplica, seria tentar matar esse duplo. Matando-o, matará ele próprio, ou melhor, aquele que desesperadamente ele tenta ser".
Também na literatura encontramos descrições notáveis desse fenômeno, como por exemplo numa passagem do conto de Guimarães Rosa, "O Espelho". Vejam só:
"Foi num lavatório de edifício público, por acaso. Eu era moço, comigo contente, vaidoso. Descuidado, avistei… Explico-lhe:: dois espelhos – um de parede, o outro de porta lateral, aberta em ângulo propício – faziam jogo. E o que enxerguei, por instante, foi uma figura, perfil humano, desagradável ao derradeiro grau, repulsivo senão hediondo. Deu-me náusea, aquele homem, causava-me ódio e susto, eriçamento, espavor. E era – logo descobri.., era eu, mesmo! O senhor acha que eu algum dia ia esquecer essa revelação?..Desde aí, comecei a procurar-me – ao eu por detrás de mim – à tona dos espelhos, em sua lisa, funda lâmina, em seu lume frio.Isso ninguém nunca o fizera antes...Olhos contra os olhos. Soube-o_ os olhos da gente não têm fim. Só eles paravam imutáveis, no centro do segredo. Se é que de mim não zombassem, para lá de uma máscara. Porque, o resto, o rosto, mudava permanentemente."
Em sua genialidade, Rosa se encontra com Freud nesse escrito, em que o sujeito se vê numa "outra cena",numa "terra assustadoramente estranha", como se viu Demóstenes ao ter que ficar face a face com seu duplo.
São vários os escritores que tentaram resolver de forma prosaica e poética este enigma do outro, do demoníaco. Machado de Assis também escreveu sobre o espelho e Fernando Pessoa com seus heterônimos, se desdobrou em três: Ricardo Reis, Alberto Caieiro e Álvaro de Campos, além de Bernardo Soares, que é, dentro da ficção de seu próprio “Livro do Desassossego”, um simples ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. É considerado um semi-heterónimo porque, como seu próprio criador explica "não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e afectividade."
A figura do duplo se notabilizou , também, na história das mentalidades.Primitivamente, o duplo era uma garantia contra a destruição de eu, "um enérgico desmentido à potência da morte" (Otto Rank) e a alma imortal foi o primeiro duplo do corpo. Porém, foi Freud quem mais se aproximou desse espanto com sua conceituação de "O Estranho " (Das Unheimliche), ou seja, aquilo que emerge repentinamente, como uma força demoníaca, irredutível e que, em sua obscuridade, descentra o sujeito e domina o jogo. Os sonhos, os delírios e os sintomas são construções do inconsciente. Todos eles desconstróem as relações entre as coisas, tais como estas se impõem na vida empírica.Freud, ao esclarecer que somos vários e que, portanto, nunca estamos assegurados das manifestações possíveis dessa multiplicidade,antecipa em muitos anos o lado obscuro desses acontecimentos que hoje nos traumatizam e envergonham. Somos testemunhas de eternos desmentidos, de juras de honras falidas, de máscaras que não se sustentam. Vivemos assujeitados à permanentes transgressões dos duplos, triplos, etc.. Luis Cláudio Figueiredo no ensaio “A lei é dura, mas...”, coloca essa questão de modo original, ao falar que vivemos num país de um “jurismo artificioso e esteticista, divorciado das condições políticas subjacentes.” Surge uma idéia de “nação” que é fictícia_ as leis precedem as realidades a serem reguladas. A idéia de justiça passa a ser uma maquiagem de conflitos.
A psicanálise, entretanto, nos propicia um certo apaziguamento face a essa angústia, quando nos ensina que a farsa tem um tempo nesse jogo indomável do inconsciente.Ele tarda, mas não falha, no tropeço das repetições e dos atos falhos, não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe... Como dizia Walter Benjamin, "a história não deve ser vista como o fluxo dos acontecimentos, mas como algo que arranca do fluxo."
Geralmente, quando ouvimos um som, uma palavra, associamos a algo ou alguém.
A primeira vez que ouvi o nome "Demóstenes", associei a um personagem da Grécia Antiga.
Quando vi Demóstenes, ainda não associei o visto a alguma figura incomum. Pelo contrário, vi um político comum
Só quando li sobre Demóstenes é que comecei a associá-lo ao elementar e primordial contemporâneo, isto é, à idéia de onipotência que assola nossos cotidianos. Demóstenes presentifica um fenômeno recorrente que se refere a aptidão de,duplicar seu ser e o tomar.como verdade.Exemplo:ao se ver exposto frente às gravações, ele disse: "Esse não sou eu". Quem seria ele então? Esse ou o outro?
É impressionante a quantidade de duplos, triplos, etc... na cena nacional. Hoje, nos relacionamos com fatos políticos sempre com essa dimensão de perplexidade, com esse sentimento de estranheza, sem nos darmos conta de que estamos diante de algo grande demais para conhecermos inteiramente, pois estamos nos relacionando com uma gama imensa de sintomas. Diariamente, nossos ouvidos são invadidos por negações de eus. Somos surpreendidos por outras faces que se revelam nas ironias do destino. Poderíamos dizer que nunca o DSM (manual para profissionais da área da saúde mental) foi tão útil à mídia, na cobertura de assuntos políticos. Seriam todos perversos, psicóticos, esquizo-paranóides? É possível encontrar um lugar onde a política seja revestida de um mínimo de saúde mental e decência? Se hoje clamamos por alguma normalidade na vida pública, é no sentido de uma normalização que implique num mínimo de critérios éticos, coerentes com o que já se denominou de “um fazer político”.
Clément Rosset, filósofo francês, deveria ser lido por Demós-tenes e outros, na medida em que trabalha de forma admirável esse desdobramento de personalidade, que aponta para graves fenômenos psicopatológicos. Ele diz que "o narcisista sofre por não se amar; ele só ama a sua representação....No par maléfico que une o eu a um outro fantasmático, o real não está do lado do eu, mas sim do lado do fantasma..... O eu é um outro, a verdadeira vida está ausente". Para Rosset o "pior erro para aquele que julga ser o seu duplo, mas que é na realidade o original que ele próprio duplica, seria tentar matar esse duplo. Matando-o, matará ele próprio, ou melhor, aquele que desesperadamente ele tenta ser".
Também na literatura encontramos descrições notáveis desse fenômeno, como por exemplo numa passagem do conto de Guimarães Rosa, "O Espelho". Vejam só:
"Foi num lavatório de edifício público, por acaso. Eu era moço, comigo contente, vaidoso. Descuidado, avistei… Explico-lhe:: dois espelhos – um de parede, o outro de porta lateral, aberta em ângulo propício – faziam jogo. E o que enxerguei, por instante, foi uma figura, perfil humano, desagradável ao derradeiro grau, repulsivo senão hediondo. Deu-me náusea, aquele homem, causava-me ódio e susto, eriçamento, espavor. E era – logo descobri.., era eu, mesmo! O senhor acha que eu algum dia ia esquecer essa revelação?..Desde aí, comecei a procurar-me – ao eu por detrás de mim – à tona dos espelhos, em sua lisa, funda lâmina, em seu lume frio.Isso ninguém nunca o fizera antes...Olhos contra os olhos. Soube-o_ os olhos da gente não têm fim. Só eles paravam imutáveis, no centro do segredo. Se é que de mim não zombassem, para lá de uma máscara. Porque, o resto, o rosto, mudava permanentemente."
Em sua genialidade, Rosa se encontra com Freud nesse escrito, em que o sujeito se vê numa "outra cena",numa "terra assustadoramente estranha", como se viu Demóstenes ao ter que ficar face a face com seu duplo.
São vários os escritores que tentaram resolver de forma prosaica e poética este enigma do outro, do demoníaco. Machado de Assis também escreveu sobre o espelho e Fernando Pessoa com seus heterônimos, se desdobrou em três: Ricardo Reis, Alberto Caieiro e Álvaro de Campos, além de Bernardo Soares, que é, dentro da ficção de seu próprio “Livro do Desassossego”, um simples ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. É considerado um semi-heterónimo porque, como seu próprio criador explica "não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e afectividade."
A figura do duplo se notabilizou , também, na história das mentalidades.Primitivamente, o duplo era uma garantia contra a destruição de eu, "um enérgico desmentido à potência da morte" (Otto Rank) e a alma imortal foi o primeiro duplo do corpo. Porém, foi Freud quem mais se aproximou desse espanto com sua conceituação de "O Estranho " (Das Unheimliche), ou seja, aquilo que emerge repentinamente, como uma força demoníaca, irredutível e que, em sua obscuridade, descentra o sujeito e domina o jogo. Os sonhos, os delírios e os sintomas são construções do inconsciente. Todos eles desconstróem as relações entre as coisas, tais como estas se impõem na vida empírica.Freud, ao esclarecer que somos vários e que, portanto, nunca estamos assegurados das manifestações possíveis dessa multiplicidade,antecipa em muitos anos o lado obscuro desses acontecimentos que hoje nos traumatizam e envergonham. Somos testemunhas de eternos desmentidos, de juras de honras falidas, de máscaras que não se sustentam. Vivemos assujeitados à permanentes transgressões dos duplos, triplos, etc.. Luis Cláudio Figueiredo no ensaio “A lei é dura, mas...”, coloca essa questão de modo original, ao falar que vivemos num país de um “jurismo artificioso e esteticista, divorciado das condições políticas subjacentes.” Surge uma idéia de “nação” que é fictícia_ as leis precedem as realidades a serem reguladas. A idéia de justiça passa a ser uma maquiagem de conflitos.
A psicanálise, entretanto, nos propicia um certo apaziguamento face a essa angústia, quando nos ensina que a farsa tem um tempo nesse jogo indomável do inconsciente.Ele tarda, mas não falha, no tropeço das repetições e dos atos falhos, não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe... Como dizia Walter Benjamin, "a história não deve ser vista como o fluxo dos acontecimentos, mas como algo que arranca do fluxo."
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